Master Of Simplicity

Destralhando para emigrar

Desemprego e ponderação em emigrar. Lembra-lhe algo?

Em Setembro de 2014 presenciei outro episódio de destralhe intenso na minha jornada minimalista. Apesar de nessa fase eu já considerar ter o essencial, essa constatação estava mudando junto com o rumo da minha vida.

Nessa época partilhei um pouco da minha situação:

Minha vida tem mudado muito desde que fui despedida junto com mais colegas e fiquei esperando que as autoridades fizessem algo pra eu ter direito aos direitos salariais e ao modelo para o fundo de desemprego (ainda nenhum chegou).

 

Pondero a emigração mais do que nunca, o que me fez olhar para a minha casa com olhos de lince. Por mero acaso entre os meses de Julho e Agosto (justo essa época) li o livro “Desafio das 100 Coisas” que fala como um americano diminuiu todos os seus pertences a 100 objetos. Comecei a ponderar, e se eu tivesse uma proposta hoje e emigrasse? Quantas coisas ainda tenho em casa que eu não sentiria falta de levar!

Este é um excerto da postagem “Fechando portas, abrindo outras…” do meu blog Música com Café. Quando escrevi esse artigo não imaginava sequer que em 3 ou 4 meses estaria no Canadá!

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Como decorreu o processo de destralhe pré-emigração

Mesmo já tendo destralhado toda a casa nos anos anteriores e ter um tipo de vida consciente que me permitia mantê-la assim, eu não me sentia bem. Olhava em volta e procurava respostas dentro de mim sobre o que eu queria realmente.

A situação profissional fez-me considerar a emigração, mesmo sem ter ideia para onde ir. Ao mesmo tempo que comecei a estudar o mercado internacional, interroguei-me sobre o que levaria comigo na hipótese dessa possibilidade se tornar real. Posso afirmar que quase dei um tiro no escuro. Permiti-me nesse mesmo instante desfazer-me daquilo que não fazia mais parte da minha vida. Eu sentia que fecharia umas portas…mas abriria outras!

(…) sinto um certo conforto por saber que eu sei o que realmente é importante para mim. Por muita história que as coisas tenham, eu procuro vida, presente, futuro, sentimento, pessoas, liberdade, paz, amor… Este processo de desapegar está me deixando uma pessoa mais feliz, numa fase em que isso não seria o esperável (diga-se, sem emprego, sem subsidio ainda, sem valorização…)!

Comecei então a visualizar o que eu queria: um emprego estável, sem atraso no pagamento do salário e onde os trabalhadores fossem valorizados pelo seu empenho e dedicação. Imaginei um lugar bonito, com boa qualidade de vida e civismo. Por diversas vezes imaginei o avião que me levaria… Mesmo sem saber ao certo para onde!

Com esta imagem no meu pensamento olhei para a minha casa e questionei-me profundamente sobre tudo o que tinha…durante os meses que se procederam.

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Como reagir face às coisas que gostaríamos de manter

O minimalista não é uma pessoa sem sentimentos. Tem coisas com as quais ele sente ligação ou faz questão de guardar. Porém, existe um equilíbrio nisto e uma necessidade forte de reflexão. Nem tudo o que parece importante é. Nem tudo o que foi útil ou nos fez feliz pode continuar a fazer.

Aqui fica outro excerto, a propósito de um sonho meu em ter uma biblioteca de livros de música:

(…) Algumas (coisas) não queria nada abdicar, como os meus pianos. Mas se eu tivesse de ir para outro país não levaria os 2 grandes comigo como é obvio… (…)

 

O mais curioso foi que no ano passado fiz um grande destralhe aos livros. Eu sempre sonhei em ter uma biblioteca, sobretudo de música. Por isso deixei só os livros técnicos de música e mais uns 2 ou 3 de literatura que adoro reler. Esta semana olhei para os livros técnicos e me surpreendi. Eu só os usei na faculdade ou na escola. Alguns levava às vezes para as aulas que dava, mas não são assim tão indispensáveis. Aquilo que eu considerava ser algo culto que eu tinha cá em casa, deixou de ter qualquer efeito para mim. Prefiro muito mais o lado prático da música que o teórico.

A análise constante a cada momento da nossa vida é indispensável. Isso permitirá a não acumulação. Permitir guardar coisas que já não fazem parte das nossas vidas é como deixar rochas na nossa bolsa. Tudo se torna mais leve e “límpido” quando refletimos e destralhamos com consciência. É como lidar com o pó. Sabe a sensação que sentimos logo depois que acabamos de limpar aquele pó que se acumulou silenciosamente e que nem sempre vemos?

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Os dois segredos de sucesso neste processo

Foi neste momento da minha vida que me apercebi o que estava errado na minha filosofia: eu estava focando a minha atenção em destralhar e simplificar ao invés de me concentrar em selecionar o que era essencial na minha vida. Esta descoberta, por muito ténue que fosse, fez toda a diferença.

Anotei e coloquei de lado o que realmente precisava, considerando todos os compartimentos da casa. Quando olhei para o que sobrava, cerca de 90% das coisas diga-se, entendi como era mais fácil do que parecia. Loiça de cozinha, toalhas, móveis, carro, etc… Nada disso era indispensável para emigrar!

Eu estava agora olhando para o meu futuro e vivendo o presente intensamente.

Já vendi um piano, já vendi alguns desses livros. Estou retirando também alguma roupa que tinha de lado para dar. Minha casa não está perdendo identidade, pelo contrário, está me dando espaço para eu ser feliz e procurar uma vida melhor.

Durante os meses seguintes decorreu o processo com a embaixada canadense. Vendi e doei praticamente tudo, grata por saber que esse dinheiro me ajudaria nessa mudança de vida. Também tomei consciência que todos os meus pertences deveriam caber numa bagagem de 31Kg!

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O segredo ainda maior é o controlo do psicológico. Seria tão mais fácil eu me lamentar pela minha vida, desempregada, esperando o subsídio, considerando ainda que geralmente nestes momentos todos os problemas acumulam e tudo se torna tão negativo! Mas o mais fácil não me levava a lado nenhum. Eu sabia o que queria: uma mudança para melhor. E tinha a certeza que este processo de destralhe era uma pequena fase para uma porta repleta de oportunidades.

E assim foi. Em Dezembro desse mesmo ano estava viajando. Não voltei a Portugal desde então. Saudades sinto das pessoas, das relações,… As “coisas” nunca mais precisei!

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Seja livre. Busque o que procura. Procure o que sente. E lute… Lute por você mesmo!

As citações foram retiradas da postagem Fechando portas, abrindo outras… do meu anterior blog Música com Café, bem como as fotografias que pertencem a postagens realizadas entre Setembro e Dezembro de 2014.

 

 

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